8. ARTES E ESPETCULOS 9.10.13

1. CINEMA  AO INFINITO E ALM
2. LIVROS  CELEBRAO DA INCERTEZA
3. LIVROS  BEM EXPLICADINHO
4. MEMRIA  O BOM-MOO FRANCISCANO
5. TELEVISO  SALVADORA DA PTRIA
6. TELEVISO  SAPATADAS NO LUGAR-COMUM
7. VEJA RECOMENDA
8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
9. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  NOMES AO LU

1. CINEMA  AO INFINITO E ALM
Com Gravidade, o diretor Alfonso Cuarn revoluciona a tecnologia, inventa um novo "fraseado" para a imagem e mergulha o espectador numa experincia sem precedentes.
ISABELA BOSCOV

	Matt Kowalski, veterano de dezenas de misses espaciais, e a novata Ryan Stone trabalham do lado de fora do nibus espacial Explorer, assistidos por um terceiro astronauta. Deste s se v a figura, ao longe, enquanto ele rodopia feliz. Tambm Kowalski (George Vlooney) se diverte, dando voltas e coltas com o jet pack s suas costas. J Stone (Sandra Bullock) est nauseada, irritada e sobressaltada. Dentro de instantes, estar em pnico: do comando de terra chega o aviso de que um satlite russo se chocou com outros, criando uma onda de destroos que vem vindo em grande velocidade na direo deles;  urgente procurar abrigo no interior do nibus espacial.  Mas a tempestade de estilhaos,  muito mais rpida. Em segundos ela deixa o Explorer, em pedaos, o terceiro astronauta e a tripulao, mortos, e Kowaslski e Stone, a deriva, orbitando sem pouso nem ncora no maior de todos os vazios enquanto tentam agarrar-se um ao outro. (O cataclismo no  mera invencionice: a onda de destroos que vai se multiplicando  um cenrio hipottico postulado em 1978 pelo astrnomo Donald J. Kessler.) At esse ponto de Gravidade (Gravity, Estados Unidos/Inglaterra, 2013), que estreia no pais nesta sexta-feira, tero transcorrido pelo menos uns doze minutos sem que a cmera do cineasta mexicano Alfonso Cuarn e do diretor de fotografia Emanuel Chivo Lubezki tenha efetuado um nico corte. Ela ter gravitado ao redor dos astronautas ou executado afastamentos e aproximaes impressionantes, e ter trocado de ponto de vista entre o narrador e cada um dos protagonistas diversas vezes, sempre com elegncia e clareza infalveis. Ter enfim, realizado um feito equivalente ao do escritor que ao mesmo tempo que narra e descreve, d falas aos seus personagens e reproduz seus pensamentos, sem usar um ponto-final sequer para indicar essas operaes de natureza to distintas.
	Trata-se de uma proeza que exigiu de Cuarn e do amigo Chivo a criao de tecnologias nunca imaginadas antes: o recurso tradicional para imitar a gravidade zero  colocar os atores num avio que sobe e ento mergulha  tornaria inviveis as tomadas demoradas que ambos haviam planejado. Mas , sobretudo, uma faanha narrativa: combinando computao grfica, 3D, som surround, cmeras e sistemas de iluminao pr-programveis, a habilidade dos titereiros de Cavalo de Guerra e a fora dos robs usados nas linhas de montagem de automveis  mais a persistncia notvel de sua atriz principal , Cuarn lana o espectador numa das mais imersivas experincias cinematogrficas j concebidas: uma jornada em que ao e reao se encadeiam sem pausa, num ambiente de verossimilhana fotogrfica e aural que mesmo hoje, quando o cinema parece poder tudo,  capaz de causar um assombro cujo nico termo de referncia seria aquele que Stanley Kubrick provocou 45 anos atrs com 2001  Uma Odisseia no Espao. (Faa-se s uma ressalva: nem o espao tem para a plateia de hoje o mistrio que guardava para o pblico de 1968, nem as ambies metafsicas de Cuarn so grandiosas como as de Kubrick.) 
     Em filmes to diversos quanto A Princesinha e E Sua Me Tambm, ou Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban e Filhos da Esperana. Cuarn se tem proposto um cinema em que a imagem no  s um meio de contar a histria; ela , em grande medida, a prpria histria e a finalidade de cont-la. Na sua busca por proporcionar ao espectador essa sensao intangvel mas definitiva de estar sendo mergulhado em outro mundo lado a lado com os personagens, Cuarn foi se estabelecendo como o mestre do plano longo  minutos e minutos em que a cmera une sozinha todas as etapas da ao, sem cortes. Aqui, ele sabe ter se superado. Mas no sabe em quanto. "Juro que no sei quanto dura a sequncia de abertura. Nem eu nem o Chivo.  questo de honra para ns", disse o diretor a VEJA (leia abaixo sua explicao para algumas das charadas tcnicas solucionadas na produo). 
     Seja qual for a marca do cronmetro em que vem esse primeiro corte,  a partir dela que qualquer informao a mais sobre o destino dos astronautas comea a trabalhar contra a trao que o filme exerce sobre a plateia. Imagine-se uma espcie de boliche infinito, em que a bola toca alguns dos pinos, que tocam outros e os deslocam para l, que tocam outros mais e os empurram para c  e assim por diante: Kowalski e Stone esto desesperados para achar um porto (e, sim, h portos possveis em rbita da Terra), mas cada gesto seu enseja uma consequncia imprevista e os leva num rumo inesperado. Essa qualidade cinti ca de Gravidade  um espetculo sensorial e lgico (e outras vezes potico, como no detalhe da lgrima que se desprende dos olhos de Stone e flutua ao redor dela) que cada um deve experimentar nos seus prprios termos, sem ser atrapalhado por amigos que falam demais ou sites que contam tudo. 
     Diz Cuarn que, se a plateia quiser tirar de seu filme simplesmente essa diverso, a da vertigem, ele j vai ficar bem feliz. Mas ficar ainda mais satis-  feito se ela embarcar tambm na viagem metafrica de Ryan Stone, que Sandra Bullock interpreta com garra soberba. Sandra, diz ele, compreendeu de imediato que havia um tema simples no centro do projeto to arrojado tecnicamente: a adversidade. Em particular, como o desejo no s de sobreviver, mas de realmente viver, costuma ganhar urgncia justamente no momento em que a vida se torna impossvel. Da a profuso de imagens que evocam tanto cordes umbilicais e ambientes de intimidade uterina como seu oposto  a violncia de ser arrancado deles e lanado no nada. Uma dica, porm: use a imaginao enquanto estiver vendo a cena final. Em apenas trs minutos, ela pe em relevo toda uma outra interpretao possvel para o que se passou nos 87 minutos anteriores.  mais sutil, e menos antolgico, que a cena de 2007 em que o osso empunhado pelo macaco na pr-histria vira uma nave espacial no futuro. Mas o esprito, esse  o mesmo: como  extraordinrio que a vida que tem inteligncia para querer viajar at as estrelas tenha partido, um dia, de um gro de poeira perdido entre elas. 

COMO EU FIZ ISSO
Em entrevista a VEJA, o cineasta mexicano Alfonso Cuarn explica alguns dos desafios que se props durante os sete anos em que trabalhou em Gravidade.

Cmera dando voltas nos personagens e trocando de ponto de vista, tudo em 3D e com poucos cortes: com que antecedncia essa "gramtica" to complicada de Gravidade teve de ser planejada? 
O objetivo  proporcionar uma experincia visceral, a de uma pessoa em uma jornada final. Para que a plateia viva essa experincia, no entanto,  preciso que ela sinta as emoes dos personagens. O que meu filho Jons, que escreveu o roteiro comigo, o diretor de fotografia Emmanuel "Chivo" Lubezki e eu queramos era que o espectador fosse o terceiro astronauta  que estivesse rodando no espao junto com Sandra Bullock e George Clooney. Explico isso para deixar claro que o que nos interessava aqui no era um exerccio de estilo ou uma olimpada tecnolgica, e sim a histria  mas, para chegar a ela, tivemos mesmo de correr uma maratona tcnica. Resumindo: o filme teve de ficar pronto antes mesmo de ligarmos as cmeras. Quando captamos o primeiro fotograma, j tnhamos uma animao completa, com cenrios finalizados e marcaes de luz e cmera definidas na casa dos segundos. 

Em Gravidade, Chivo fez algo incomum para um cinegrafista: tomou para si a tarefa de iluminar todas as partes do filme feitas em computao grfica. Por qu? 
De fato, essa  uma tarefa que costuma ficar com as equipes de efeitos digitais; elas  que criam a cena, e a iluminao faz parte dela. O diretor do filme e o diretor de fotografia apenas do o o.k. final ao trabalho. Mas a luz no espao no se parece com nenhuma outra luz que conhecemos, porque no h atmosfera para difundi-la ou refrat-la. Ficou claro para ns que, para que o resultado alcanasse o fotorrealismo e a coeso que almejvamos, ela teria de ser tratada com status de personagem e apuro redobrado. Chivo ento cuidou dela da mesma forma que cuida da iluminao no set. E realizou um desejo: o de dizer coisas como "agora jogue o Sol 1 milho de milhas para a esquerda". 

Tambm Sandra Bullock teve de enfrentar desafios tcnicos e fsicos em escala indita para um ator, no? 
Seria impossvel enumer-los, mas vou tentar. Primeiro, a limitao dramtica: como todos os movimentos de cmera estavam pr-programados, simplesmente no havia espao para sequer tentar algo um pouco diferente. Sandra teve de desenvolver o personagem dentro de marcaes durssimas de tempo e de movimento. Depois, a solido intensa. Na maior parte do tempo, Sandra ficava girando presa a uma armao, dentro de uma caixa preta iluminada conforme as exigncias da cena, com as cmeras se movendo ao redor dela   um dos recursos que bolamos para transmitir a sensao de que ela est flutuando. Como era muito difcil entrar e sair da armao, ela permanecia at dez horas ininterruptas dentro desse caixote. Tente aguentar dez minutos disso e depois me diga como se sentiu. Mas ainda no chegamos ao pior; para as cenas em que ela tem de se movimentar livremente em gravidade zero dentro da estao espacial, fizemos de Sandra literalmente uma marionete. Ela vestia placas de metal s quais ia presa uma dzia de cabos  os quais eram manipulados por titereiros que vieram da montagem londrina da pea Cavalo de Guerra e robs como esses usados na fabricao de automveis.  um esforo inimaginvel. Tentei  e em segundos j estava berrando para me tirarem dali. Sandra, porm, treinava as sequncias at o ponto em que esse esforo se tornasse imperceptvel e s a graciosidade do movimento no espao restasse, para ento se concentrar inteira na interpretao. 

A msica de Steven Price  um dos aspectos mais originais e impactantes de Gravidade. Quanto o senhor influiu nela? 
Impus certos parmetros. Primeiro, nada de percusso. Os elementos percussivos na msica evocam a sensao de atmosfera, porque so os que mais longe se propagam nela  e no ambiente de Gravidade no h atmosfera. Alm disso, j virou rotina assinalar uma emoo forte ou um momento decisivo de um filme com percusso. Determinei ainda que a msica deveria seguir a lgica do cenrio em que o filme se passa: se nem a cmera nem os personagens tm onde se ancorar, tambm a trilha deve estar "solta" e flutuar pela sala  ora ela vem de um lado, ora de outro, sem estar presa a um eixo principal e reforando assim a experincia dinmica da imagem. Finalmente, decidi que os silncios que s vezes sobrevm deveriam ser contados como parte da msica: so espaos negativos na partitura, mas fazem parte dela. Alis, cogitei no usar trilha sonora, mas descobri que aps alguns minutos o silncio perde o seu valor. Para que ele seja percebido e exera o efeito pretendido  para que seja to ruidoso quanto a msica, por assim dizer , tem de ser contrastado com o som. 


2. LIVROS  CELEBRAO DA INCERTEZA
O abalo da relao dos homens com a realidade est no centro da antologia de fico fantstica que Borges organizou com os amigos Bioy Casares e Silvina Ocampo.
CARLOS GRAIEB

     Jorge Luis Borges, um dos gnios da fico do sculo XX, definiu-se mais de uma vez como leitor, acima de tudo. Que outros se vangloriassem dos livros que haviam escrito; sua glria, dizia, estava nos livros que ele havia lido. Ento, para falar da Antologia da Literatura Fantstica (traduo de Josely Vianna Baptista; CosacNaify; 448 pginas; 69 reais) que agora chega ao Brasil, talvez baste a declarao feita por Borges em 1968, trs dcadas depois de ele a ter idealizado com os amigos Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo: " o melhor livro do mundo". Quem parar por aqui e mergulhar diretamente nas pginas da Antologia est desculpado. O resto  resenha. 
     Quando a Antologia foi lanada na Argentina, em 1940, os trs organizadores j eram nomes conhecidos na cena literria do pas natal, e promoviam uma guerra para impor suas ideias. O tempo das escolas e dos manifestos ainda no havia ficado totalmente para trs... Segundo explicou Bioy Casares numa nota  segunda edio da coletnea, publicada em 1965, o inimigo que eles combatiam com verdadeiro "ardor sectrio" era a fico dominante, psicolgica, a que atribuam os pecados de negligenciar a trama e o rigor construtivo. O ataque se dava em vrias frentes. Aquele ano de 1940 viu surgir tambm, por exemplo, a obra-prima de Bioy Casares.  A Inveno de Morel, fico fantstica com um prlogo de Borges que enaltece o romance de peripcias em detrimento, exatamente, das "informes" novelas psicolgicas. Mas a Antologia foi especialmente bem-sucedida no propsito de acelerar a formao de um novo gosto literrio. Os crticos lhe reconhecem hoje esse papel histrico, em relao  Argentina e mesmo a pases vizinhos. 
     Devem-se provavelmente s intenes de "poltica literria" da Antologia certas peculiaridades. Desde a primeira edio, que contava com 54 textos, houve um grande nmero de autores argentinos, tais como Macedonio Fernndez e Leopoldo Lugones, que os organizadores consideravam precursores. No faltou tambm um conto de Borges: Tln, Uqbar, Orbis Tertius. Na segunda edio (que serve de base para a brasileira), o nmero de argentinos cresce ainda mais, com nomes como Jlio Cortzar e os prprios Bioy Casares e Silvina Ocampo. Esto ausentes, por outro lado, nomes centrais da literatura fantstica que floresceu no Ocidente no sculo XIX. Sem maiores explicaes, so esquecidos os alemes E.T.A. Hoffmann e Joseph von Eichendorff, o irlands Sheridan Le Fanu, o russo Nikolai Gogol e o americano Ambrose Bierce. Para uma viso panormica dessa tradio, vale conferir a igualmente saborosa antologia estabelecida pelo italiano talo Calvino em 1983, Contos Fantsticos do Sculo XIX (Companhia das Letras). No lugar desses autores surgem de maneira idiossincrtica, no livro argentino, ficcionistas obscuros como Holloway Hora, um etnlogo como James George Prazer, um mstico como Emanuel Swedenborg e um fillogo como Thomas Bailey Aldrich. Muitas vezes, em lugar de contos completos so transcritos fragmentos  que no entanto encapsulam a ideia do fantstico. 
     Encarregado de escrever a introduo para ambas as edies da Antologia, Bioy Casares no se esforou em definir o fantstico. Elencou, apenas, os seus muitos ingredientes: fantasmas, viagens no tempo, encontros com a morte e o diabo, fantasias metafsicas, sonhos e prodgios. Mas, como todos os gneros ficcionais, o fantstico tem uma funo que precisa cumprir. O horror assusta, o ertico excita, o romance de detetive resolve um enigma. Qual a funo do fantstico? Que efeito ele quer produzir? 
     Um atalho para a resposta se encontra na pgina 150 da Antologia.  um texto muito curto de Chuang Tzu, filsofo chins da Antiguidade: "Chuang Tzu sonhou ser uma borboleta. Ao despertar no sabia se era Tzu que havia sonhado que era uma borboleta ou se era uma borboleta e estava sonhando que era Tzu". Essas linhas conduzem diretamente ao corao do fantstico: ele  um abalo na relao do homem com a realidade, que produz um ndulo de incerteza. O crtico blgaro Tzvetan Todorov, autor de um clssico sobre o assunto, definiu assim a questo: "A f absoluta, como a incredulidade total, nos leva para fora do fantstico;  a hesitao que lhe d vida". Ele procurou traar as fronteiras entre esse gnero e outros dois que lhe so contguos: o estranho e o maravilhoso. Quando o momento de hesitao fantstica  superado em favor de uma explicao lgica, trata-se do estranho; quando ele se resolve na aceitao de uma ordem mgica ou sobrenatural, surge o maravilhoso. E Todorov tampouco deixou de notar que em certas obras da fico moderna  como as do checo Franz Kafka ou as do prprio Borges  a sensao de irrealidade no se desfaz jamais: o fantstico se naturaliza, ou passa a coincidir com o "normal". 
     Mas isso  teoria. Voltemos ao elogio enftico de Borges  um escritor que, alis, abominava a nfase. Em 1968, velho e consagrado, ele por certo j no tinha em mente as batalhas para derrotar adversrios artsticos, mas apenas o amor que o ligava a um certo tipo de literatura. Esse amor estivera presente na origem da Antologia, numa noite em 1937 quando Borges e seus amigos se haviam reunido para falar de livros e das histrias que lhes davam prazer. As escolhas daquela noite evoluram mais tarde para formar a coletnea que se tornou clssica. E, se no seu acrscimo ao prefcio, escrito em 1965, Bioy Casares lembra o passado combativo,  tambm apenas para descart-lo. A Antologia, diz ele quela altura, no precisa de explicaes ou justificativas, exceto a mais banal: o conto fantstico corresponde a um anseio do homem  "ao desejo inesgotvel de ouvir histrias". E isso basta. 


3. LIVROS  BEM EXPLICADINHO
H personagens cativantes e histrias poderosas em O Heri Discreto, de Mrio Vargas Llosa. Pena que estejam soterrados por redundncias e reiteraes do bvio.
JERNIMO TEIXEIRA

     Executivo aposentado de uma empresa de seguros, Rigoberto l um editorial da revista The Economist sobre a crise europeia. A cena est na penltima pgina de O Heri Discreto (traduo de Paulina Wacht e Ari Roitman: Alfaguara: 344 pginas; 39,90 reais), mas o leitor no precisa se preocupar: no vai aqui nenhuma revelao crucial sobre a trama. Neste passo, porm, h um detalhe mnimo que , sim, revelador do modo como se constri este novo romance do peruano Mrio Vargas Llosa, 77 anos. Ei-lo: "...o euro, a moeda comum...". No  de imaginar que o leitor tpico de Vargas Llosa ignore que o euro  a moeda comum da Europa. Qual seria, ento, a necessidade do aposto explicativo? Poucas pginas antes, outro aposto informa quem  o pop star da predileo de Fonchito, o filho adolescente de Rigoberto: "Justin Bieber, um cantor canadense que enlouquecia jovens do Mundo todo'". Ainda que se admita que alguns fs do autor j tenham idade para precisar desse esclarecimento, o recurso  pesado, desajeitado, um crime de lesa-estilo indesculpvel para quem , como Vargas Llosa, um cultor de Flaubert. O Heri Discreto traz personagens cativantes envolvidos em histrias poderosas de conflito familiar, crime e sexo  mas o potencial dramtico da narrativa nunca se realiza, to atravancada ela est por explicaes do bvio e reiteraes do que j se conhece. 
     Chega a ser patolgica a compulso explicativa do narrador. Quando um personagem  revistado ao entrar em um presdio, ele no deixa de acrescentar: "para verificar que no tinha armas". O texto tambm  atulhado de recapitulaes, como se o autor no confiasse minimamente na memria de quem o l. Na pgina 19, quando entra em cena a adivinha Adelaida, ela diz que considera seu dom das premonies (ou "inspiraes", como prefere dizer) uma maldio. Na pgina 321, l est ela de novo dizendo que no gosta das inspiraes  e mais uma vez logo na pgina seguinte. Tanta redundncia acaba tornando a leitura cansativa. Esses defeitos de acabamento quase obscurecem a arquitetura geral do romance, na qual ainda se vem os traos prprios do grande romancista que  Vargas Llosa. So contadas duas histrias, em captulos alternados. Na cidade peruana de Piura, Felcito, um empresrio do ramo de transportes, recebe cartas annimas que exigem pagamento para garantir a "proteo" de seu negcio. Aferrado a um conselho que seu pai lhe deu no leito de morte  no se deixar pisotear jamais por quem quer que seja , Felcito recusa-se a atender s exigncias dos criminosos. Em Lima, Rigoberto aceita ser testemunha do matrimnio de seu chefe e amigo Ismael, octogenrio que est se casando com uma antiga empregada, bem mais jovem  e s por isso se v envolvido na disputa mesquinha entre o feliz noivo e seus dois filhos gmeos, verdadeiros delinquentes. Felcito, rude e sem educao, tem pouco em comum com o culto e refinado Rigoberto, mas a dignidade de um espelha a firmeza do outro, e as duas histrias convergem no final. 
     Para quem j conhece a literatura de Llosa, O Heri Discreto permite o reencontro com personagens queridos do autor  Lituma, de A Casa Verde e Lituma nos Andes, e o prprio Rigoberto, de Os Cadernos de Don Rigoberto. Ainda se v um cronista acurado dos conflitos sociais, raciais, morais do Peru  embora nem de longe o novo romance alcance a octanagem crtica de Conversa na Catedral. Em sua longa e prolfica carreira literria, o autor peruano fez por merecer vrios apostos. Ele  Mrio Vargas Llosa, figura de ponta do boom literrio latino-americano, Nobel de Literatura de 2010, crtico lcido e desassombrado de ditadores, caudilhos e demagogos, um mestre do erotismo, o humorista impagvel de Pantaleo e as Visitadoras, o memorialista magistral de Peixe na gua, o autor do melhor romance j escrito sobre Canudos, A Guerra do Fim do Mundo. Comparativamente, O Heri Discreto  um aposto quase to desnecessrio quanto "a moeda comum" depois de "euro". 


4. MEMRIA  O BOM-MOO FRANCISCANO
Morre Cludio Cavalcanti, o gal que defendia os bichos.

     Ao abrir a porta do consultrio, o psiclogo depara com um homem grisalho e alquebrado, com a expresso ao mesmo tempo grave e suplicante de quem luta contra demnios interiores. Otvio, empresrio vtima de sndrome do pnico,  o tipo mais marcante apresentado na segunda temporada da srie nacional Sesso de Terapia, dirigida por Selton Mello e com estreia nesta segunda-feira no GNT.  um desses papis que exigem a dosagem precisa dos picos e refluxos das emoes e, portanto, o controle absoluto da expresso e de cada pausa dramtica. Para um ator como o carioca Cludio Cavalcanti, que tem seu rosto gravado de forma inescapvel na paisagem da televiso brasileira mas andava fora de cena, despedir-se com um personagem assim  extraordinrio. Ele morreu no domingo 29, aos 73 anos, de complicaes cardacas em decorrncia de uma cirurgia na coluna cervical. 
     Cavalcanti fez mais de cinquenta trabalhos na televiso, 22 filmes e dezenas de peas teatrais. Embora estivesse h mais de uma dcada longe do horrio nobre da Globo, emissora na qual se consagrou, seu rosto ainda  reconhecvel de imediato. O bem-apessoado Cavalcanti se tornou um ator familiar para os espectadores a partir de 1970, quando viveu Jernimo, o mais romntico e idealista dos trs protagonistas de Irmos Coragem, novela de autoria de Janete Clair e o primeiro grande sucesso do gnero na Globo. Sua estampa de bom-moo se cristalizou graas a personagens como o poeta Juca Campos Lara, da aucarada O Feijo e o Sonho, exibida em 1976, e o padre Albano, de Roque Santeiro, em meados dos anos 1980. 
     Na dcada passada, quando j no fazia novelas com regularidade, Cavalcanti embrenhou-se na poltica. Elegeu-se vereador por dois mandatos na cidade do Rio de Janeiro e, atualmente, ocupava o cargo de secretrio de Defesa dos Animais na gesto do prefeito Eduardo Paes. A paixo pelos bichos, alis, ficou patente em seu velrio: fs do ator e simpatizantes da causa colocaram ces e at um galo sobre seu caixo. A participao em Sesso de Terapia trouxe o gal convertido em franciscano de volta ao ponto de origem. Ele terminou de gravar seu ltimo papel poucas semanas antes de ser internado. 
MARCELO MARTHE


5. TELEVISO  SALVADORA DA PTRIA
A americana Judy Smith  a inspirao real da gerenciadora de crises que protagoniza a srie Scandal. Discrio, ela ensina,  tudo no ramo.

At o ano passado, a americana Judy Smith, de 54 anos, era uma eminncia invisvel de Washington. No governo George Bush (1989-1993), a gerenciadora de crises atuou em episdios como os distrbios raciais em Los Angeles e a Guerra do Golfo. Em 1998, assessorou Monica Lewinsky no escndalo sexual envolvendo a estagiria da Casa Branca e o presidente Bill Clinton. A srie Scandal, do canal Sony, a tirou da sombra. A co-produtora-executiva Judy  a inspirao de Olivia Pope (Kerry Washington), que salva poderosos encrencados e  amante do presidente. Dias antes de vir ao Rio de Janeiro para dar uma palestra, no domingo 6, ela falou ao editor Marcelo Marthe.

No que consiste seu trabalho? 
Ajudo empresas e pessoas a navegar o mar agitado dos escndalos, protegendo suas marcas e reputaes. O bom gerenciamento das crises limita os estragos e at extrai algo positivo delas. Martha Stewart (apresentadora da TV americana que foi condenada em um caso de fraude na venda de aes)  prova disso. O escndalo a humanizou.

Quais so seus clientes tpicos? 
Polticos, executivos, esportistas e celebridades. A maioria, em algum momento, acaba se envolvendo em confuso. Todos ns cometemos erros e tomamos ms decises. No fundo, a nica diferena entre mim, voc e meus clientes  que nossos erros no so escancarados em rede nacional de TV.

Quanto h da Judy Smith real em Olivia Pope? 
Alm de ser parecida comigo, Kerry Washington incorporou meu jeito de ser. Era importante para mim que sua Olivia Pope fosse uma mulher forte, de bom corao e que nunca demonstrasse medo. E o principal: que no julgasse seus clientes. Obviamente, tomamos licenas poticas para que a coisa funcione na TV. Embora faa investigaes por conta prpria, eu no encorajo procedimentos ilegais. E juro que nunca fiz sexo com o presidente dos Estados Unidos.

Qual foi sua primeira misso como gerenciadora de crises? 
Aos 11 anos, organizei uma coletiva de imprensa para ajudar um casal popular da minha escola atingido por revelaes de traies. Atuei como mediadora entre ambos e apaguei o incndio. Mais tarde, resgatei esse dom na carreira pblica. Est no meu DNA.

Que problemas afligem as grandes empresas? 
Toda sorte de briga boa. Procuram-me para cuidar do recall de produtos e ajud-las a lidar com investigaes do Congresso ou da Justia. Casos de executivos envolvidos em assassinatos tambm no so raros.

E os polticos? 
Ah, no existem limites para os problemas deles. Buscam auxlio para lidar com relacionamentos imprprios ou aprovar projetos no Congresso. Outras vezes  e eu sei que esse  um tema que vocs conhecem bem no Brasil  vm se socorrer de problemas legais com o financiamento de campanhas. Na hora da encrenca, a poltica  muito democrtica: h gente enrolada de qualquer lado do espectro ideolgico.

Olvia Pope j socorreu um poltico que matou o amante da mulher. Isso veio de algum  caso real? 
No. Os casos do programa nunca so tirados do meu portflio. Sou muito rigorosa quanto ao sigilo dos clientes.

No d para falar nem sobre sua cliente mais notria, a ex-estagiria Monica Lewinsky? 
No posso abrir nada, sinto muito. No passa de boato, por sinal, que o ex-presidente Clinton tenha me ligado para checar se Scandal falaria sobre ela. Mas deixe-me contar algo que se aplicou demais a esse caso: no h desafio maior do que tirar um cliente dos holofotes quando a mdia est em seus calcanhares.

Celebridades lhe do trabalho? 
O feijo com arroz de sempre. Problemas profissionais e crises no casamento ganham uma dimenso avassaladora quando se trata de gente famosa.

Que categoria tem mais problemas com sexo e drogas? 
Esses so pepinos universais. Polticos, executivos e celebridades se equivalem.

Qual a importncia de profissionais como a senhora para os presidentes americanos? 
Se j era importante quando comecei, hoje  ainda mais. A rapidez com que revelaes e boatos circulam nos blogs e redes sociais torna nossa atuao desafiadora. E ningum est mais sujeito s turbulncias que um presidente.

Olivia Pope seria valiosa para o presidente Barack Obama lidar com seus problemas? 
Ela seria capaz de resolver qualquer coisa. Gosto de lembrar a polmica na qual o presidente Obama se envolveu na campanha de 2008, em razo das opinies radicais de seu ex-pastor, Jeremiah Wright. Seus estrategistas no souberam avaliar o potencial de barulho e reagiram de forma tmida. Obama atacou as posies de Wright, mas no o pastor. S que, nas crises, no d para ficar em cima do muro. 

A senhora  durona e to focada no que faz como a personagem? 
Ir direto ao ponto  parte de mim. No d para manter o cliente num mundo de fantasia enquanto sua imagem est indo para o buraco. 


6. TELEVISO  SAPATADAS NO LUGAR-COMUM
Por que um caso de rejeio  um mrito da novela das 7.

Tempos atrs, quando a Globo fez uma pesquisa com donas de casa sobre a novela das 7, Sangue Bom, detectou-se rejeio a uma nica personagem. Causava incmodo a dubiedade de Amora (Sophie Charlotte), ex-menina de rua convertida em it girl  uma jovem que lana tendncias. Ela tem uma pitada de mocinha, traduzida no amor sincero por Bento (Marco Pigossi). A obsesso por sapatos caros vem de um trauma: a bonitinha foi "p descala na infncia. Mas Amora  uma vbora. "Ela  ordinria'', diz a noveleira Maria Adelaide Amaral. Ocorre que os motivos da sua rejeio so os mesmos que fazem de Sangue Bom a novela mais afiada do momento: ela  capaz de atrocidades como falsificar um exame de DNA imbuda da crena de que o faz por uma boa causa. No captulo do sbado 12, seu barraco vai desabar: Bento descobrir suas falcatruas. Com bravura, porm, Maria Adelaide e o coautor Vincent Villari no a tiraro da zona cinzenta: em vez de se assumir como vil, ela se mostrar compadecida com a leucemia da irm. "Amora veio para confundir", diz Sophie. 
MARCELO MARTHE


7. VEJA RECOMENDA

TELEVISO
WHITECHAPEL (ESTREIA NESTA SEGUNDA-FEIRA, S 22H, NA BBC HD)
 No fim do sculo XIX, a regio de Londres que d ttulo a esta srie policial foi cenrio dos assassinatos brutais de mulheres cometidos pelo notrio Jack, o Estripador, cuja identidade nunca foi desvendada. No ar desde 2009 e hoje na sua quarta temporada, Whitechapel, mais uma boa investida da TV inglesa no policial (a melhor ainda  a verso modernizada de Sherlock Holmes), comea com as investigaes dos crimes de um imitador de Jack na Londres contempornea. A trama explora com bom humor a relao tempestuosa entre o protagonista, o inspetor Joseph Chandler (Rupert Penry-Jones), um almofadinha com mania de limpeza que sai do conforto da burocracia da polcia para os trabalhos de rua, e seu assistente irascvel e meio rstico, Ray Miles (Philip Davis). Enquanto caam o aspirante a novo estripador e outros imitadores de crimes famosos, os dois policiais circulam por uma Londres que  quase uma personagem  parte, com sua neblina caracterstica e seus becos obscuros.

DVD
ALM DA IMAGINAO (THE TWILIGHT ZONE, ESTADOS UNIDOS, 1959. VISUAL FILMES)
 "Vocs viajaro para uma outra dimenso. Uma dimenso no apenas visual ou auditiva, mas mental." De 1959 a 1964, esses dizeres serviram de introduo para uma das sries mais importantes da histria da TV. Criada pelo roteirista Rod Serling (1924-1975), que tambm atuava como narrador e apresentador. Alm da Imaginao trazia episdios de meia hora de durao, com histrias de fico cientfica, terror e fantasia. A srie  cuja primeira temporada  reunida nesta caixa  tinha um tema musical sugestivo, criado por Bernard Herrmann (clebre pelas trilhas de filmes de Alfred Hitchcock). As histrias foram protagonizadas por atores lendrios, como Martin Landau  aqui, dando os primeiros passos na pele de um pistoleiro. Ou Burgess Meredith, que faz o heri improvvel de um dos melhores episdios, "Time enough at last": trata-se de um bancrio cuja paixo obsessiva por livros lhe traz problemas no campo profissional e amoroso  at que um dia uma bomba arrasa o mundo, e mais no se pode dizer para no entregar a surpresa. O episdio tornou-se clssico: j foi parodiado em Os Simpsom, Uma Famlia da Pesada e at Bob Esponja.

LIVROS
A AMANTE DE FREUD (TRADUO DE DANIELA P.B. DIAS; CASA DA PALAVRA; 336 PAGINAS: 44,90 REAIS)
 A possibilidade de que Sigmund Freud tenha tido um caso com Minna Bernays, irm mais nova de sua mulher, Martha, assombra a histria da psicanlise. Em uma entrevista de 1957, Carl Jung, suo cuja escola meio esotrica de psicanlise foi a grande ciso do movimento fundado por Freud, disse que a prpria Minna lhe havia contado sobre o affair  mas muitos estudiosos atriburam a afirmao  maledicncia de um rival. Em 2006, descobriu-se que Freud e Minna se registraram como marido e mulher em uma hospedaria na Sua, em 1898. Os bigrafos consideram indcios como esse com cautela. A fico, porm, no precisa ser to prudente: Karen Mack e Jennifer Kaufman, parceiras em dois romances anteriores, aventuraram-se pelo universo familiar de Freud neste drama intimista que toma como premissa a realidade do caso entre Minna e seu cunhado. Embora talvez superficial nas consideraes sobre psicanlise,  um envolvente romance histrico, com uma reconstituio vvida da Viena na virada do sculo XIX para o XX. 

LONGE DA RVORE, DE ANDREW SOLOMON (TRADUO DE PEDRO MAIA SOARES, DONALDSON GARSCHAGEN E LUIZ DE ARAJO; COMPANHIA DAS LETRAS: 1056 PGINAS; 79,50 REAIS)
 O escritor americano Andrew Solomon tornou-se clebre por um brilhante ensaio sobre um mal de que ele mesmo sofreu  a depresso. Celebrado pela crtica, O Demnio do Meio-Dia foi traduzido para 21 idiomas  no Brasil, frequentou a lista de mais vendidos. Seu mais recente livro surge novamente de sua experincia pessoal: criado numa equilibrada famlia de classe mdia em Nova York, Solomon teve de fugir de casa quando assumiu sua homossexualidade. Longe da rvore  um estudo alentado sobre a relao dos pais com filhos que no correspondem a suas expectativas e sobre o caminho s vezes acidentado para a aceitao e o afeto. Os personagens enfocados por Solomon compem uma amostragem ampla da diversidade biolgica e psicolgica da humanidade: autistas, surdos, anes, portadores de sndrome de Down, crianas-prodgio, filhos concebidos do estupro. Tal como fez em O Demnio do Meio-Dia, Andrew Solomon conjuga aqui o talento literrio, a sensibilidade e o rigor na informao cientfica.

DISCO
DISCO, ARNALDO ANTUNES (ROSA CELESTE/NATURA MUSICAL)
 Arnaldo Antunes  um roqueiro que consegue dialogar com todas as geraes da MPB. Disco, seu 15 trabalho-solo, vai da bossa nova a ritmos do norte do pas, passando por rock e soul music. Cantor de personalidade agregadora, Antunes foi feliz na hora de combinar convidados de formaes diferentes. Em Dizem (Quem Dera), os arranjos de cordas do maestro Ruri Duprat (sobrinho de Rogrio Duprat, um dos mentores do tropicalismo) abrilhantam os vocais de apoio de Anelis Assumpo e Marcia Castro. Oxal Chegar traz o encontro de Mnica Salmaso, cantora de perfil mais tradicionalista, com uma guitarra roqueira e discretos efeitos eletrnicos. Igualmente feliz  a reunio de Arnaldo com a cantora Cu e com Hyldon, figura de ponta do soul brasileiro, na balanada Trato. A voz grave e sem grandes modulaes do compositor no casa bem com as faixas mais delicadas  como Acalanto pra Acordar , mas  tima na hora de partir para o rock, como se ouve em V Trabalhar e em Sentido, parceria com Nando Reis que data dos tempos dos Tits. 


8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
2. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO 
3. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
4. Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
5. Desastre Iminente. Jamie MacGuire. VERUS
6. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA 
7. O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
8. Cretino Irresistvel. Christina Lauren. UNIVERSO DOS LIVROS
9. Uma Longa Jornada. Nicholas Sparks. ARQUEIRO
10.   Cinquenta Tons de Cinza. E.L. James. INTRNSECA

NO FICO
1. Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2. 1889. Laurentino Gomes. O GLOBO 
3. Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA
4. O Mnimo que Voc Precisa Saber para No Ser um Idiota. Olavo de Carvalho. RECORD 
5. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
6. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM
7. 1808. Laurentino Gomes. PLANETA 
8. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
9. O Prncipe da Privataria. Palmrio Dria. GERAO EDITORIAL
10. Holocausto Brasileiro. Daniela Arbex. GERAO EDITORIAL

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
5. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE 
6. Receitas Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER 
7. Quem Me Roubou de Mim? Fbio de Melo. CANO NOVA
8. O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA
9. Seja a Pessoa Certa no Lugar Certo. Eduardo Ferraz. GENTE 
10. Terapia Financeira. Reinaldo Domingos. DSOP


9. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  NOMES AO LU
     Que h num nome?, pergunta Julieta a Romeu. Ela mesma responde: "O que chamamos rosa, mesmo com outro nome, teria o mesmo doce odor". Quem procurar o que h no nome dos partidos polticos brasileiros vai se perder numa sopa de umas poucas palavrinhas que, repetidas  exausto, mais os confundem do que os singularizam. Nos ltimos quinze dias, o generoso sistema poltico brasileiro acolheu mais duas agremiaes, uma com um nome comprido  Partido Republicano da Ordem Social (Pros)  e outra com um curto  Solidariedade. Uma terceira, que escolheu o nome extico, para um partido, de Rede Sustentabilidade, foi reprovada. Por que o Solidariedade, que apresentou assinaturas falsas no seu rol de apoiadores, recebeu a aprovao do Tribunal Superior Eleitoral, enquanto a Rede Sustentabilidade, de comprovada lisura, no o mereceu,  mistrio fora do alcance do colunista. Nosso tema ser mais ligeiro e mais ftil, como convm a um universo pndego como o do sistema partidrio brasileiro.  
     Com os dois nascidos nas ltimas semanas, so 32 os partidos brasileiros. So muitos. Mas so poucas as palavras com que se identificam, cada qual usando uma combinao diferente das mesmas e surradas frmulas "social/socialista", "trabalhista/trabalhadores", "democrata/democrtico" ou "repblica/republicano". A famlia com maior nmero de ocorrncias  a social/socialista  dez, variando dos conhecidos Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e Partido Socialista Brasileiro aos nanicos Partido Social Democrata Cristo e Partido Social Liberal. Reconheamos que "social" e "socialista" no apontam para a mesma coisa. Mas reconheamos tambm que, no caso brasileiro, nem todos os "socialistas" apontam para o socialismo, nem os "sociais" s polticas sociais, quando apontam para alguma coisa. Socialistas e sociais confundem-se no gosto pelo antepositivo soci-, tido como de miraculoso efeito junto ao eleitorado. 
     Vm em seguida os partidos com "trabalhista/trabalhadores" no nome  oito, no total. "Dos trabalhadores" so dois  o PT e o PSTU. Este, alm de ser dos trabalhadores,  socialista, e para culminar declara-se "unificado". A julgar pela quantidade de partidos "social/socialistas" e "trabalhistas/trabalhadores", no entanto,  foroso concluir que por enquanto a unificao pouco avanou. Os que se chamam de "trabalhista" so seis, dos mais conhecidos PTB e PDT ao PTdoB (Partido Trabalhista do Brasil) e PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro). Os trabalhadores do Brasil esto muito bem servidos. Tm ainda  disposio as variedades Trabalhista Cristo e Trabalhista Nacional, basta decifrar o que significam. Mas os democratas no ficam atrs  os partidos com democrata/democrtico no nome so tambm seis  os veteranos PMDB, PSDB, PDT e DEM, o novato PSD do ex-prefeito Kassab e, por ltimo, o menos cotado Partido Social Democrata Cristo, do ei-ei-ei Eymael, o sorridente cavalheiro que, entra eleio, sai eleio, bate seu ponto. 
     Quatro partidos apresentam-se com as palavras "repblica/republicano", trs com "nacional", outros trs com "cristo" e dois com "progressista". J conhecemos a receita. Pega-se um "trabalhista" aqui, um "social" ali, um "republicano" acol, mistura-se bem, mexe-se, coa-se, acrescenta-se um "brasileiro" ou "nacional" a gosto e est batizado o partido. Raramente se vai alm disso. Os dois surgidos nos ltimos dias, porm  reconhea-se , de certa forma foram. O Solidariedade nem tanto, uma vez que apenas procura tirar vantagem em cima do famoso movimento polons dos anos 1980, sendo que a distncia entre um e outro  to notvel na dimenso histrica quanto na existente entre as figuras de Lech Walesa e do Paulinho que gosta de apelidar-se "da Fora". 
     Mais significativa  a contribuio do Partido Republicano da Ordem Social, o Pros, ao trazer a palavra "ordem" de volta ao quadro partidrio. A ltima vez que ela se fez, presente foi no Prona, o Partido da Reedificao da Ordem Nacional (nada menos do que isso), do falecido Enas. O Pros defende a "ordem social". Talvez a "ordem" s tenha entrado para ajudar na sonoridade da sigla. Mas talvez o propsito seja mesmo cuidar da ordem social  um setor que andava negligenciado desde a extino do Departamento de Ordem Poltica e Social (Dops), de memorvel atuao no Estado Novo e na ditadura militar. 


